No século XX vivenciamos enorme desenvolvimento
tecnológico, que acredito ter suplantado todo o progresso nos séculos
anteriores somados. Isso se deveu principalmente às descobertas científicas nas
primeiras décadas do século, que permitiram decifrar a estrutura da matéria.
Saber que a matéria é constituída de átomos e moléculas, que interagem entre si
segundo as regras da mecânica quântica, permitiu não só compreender as
propriedades dos materiais que nos cercam, mas também projetar novos materiais.
Os exemplos mais marcantes são os
semicondutores empregados na fabricação de computadores e toda sorte de
equipamentos eletrônicos, e os avanços na medicina a partir da síntese de
fármacos e da criação de novos métodos de diagnóstico. Ressalte-se, a
propósito, que descobertas como as do laser e o uso de ressonância magnética na
medicina seriam impossíveis se cientistas desconhecessem como funciona a
matéria. No que concerne à importância econômica, levantamentos nos Estados
Unidos apontam para mais de 50% do Produto Interno Bruto (PIB) daquele país
serem gerados por tecnologias que usam a mecânica quântica. É o sucesso de uma
abordagem científico-tecnológica que podemos classificar como reducionista, na
medida em que buscamos compreender o funcionamento da matéria até seus
constituintes mais elementares, e que hoje é o paradigma no qual se baseia a
nanociência e nanotecnologia.
Com os grandes avanços obtidos da aplicação de
uma teoria largamente comprovada, a teoria quântica, pode-se ter a impressão de
não restar desafios científicos significativos. Esta impressão não poderia ser
mais falsa, pois ainda não é possível aplicar a teoria à maioria esmagadora dos
materiais, inclusive os mais importantes constituídos de matéria viva (como os
seres humanos). A dificuldade principal está na falta de ordem na disposição
dos átomos na matéria. Aplicar os princípios da mecânica quântica para um
sólido cristalino, em que os átomos estão organizados em arranjos regulares, é
relativamente simples. O mesmo não é verdadeiro para líquidos, como a água, ou
sólidos não cristalinos, para os quais não conseguimos fazer previsões precisas
sobre seu comportamento. Mais complicado é tentar entender as propriedades de
moléculas constituídas de grande número de átomos como as proteínas, essenciais
para a vida.
A análise da matéria viva, em particular, é um
desafio ainda mais gigantesco por dois motivos. i) ela é constituída de
estruturas auto-organizadas com número enorme de diferentes componentes,
moléculas pequenas e grandes, e muita água. ii) suas propriedades finais não
dependem apenas do comportamento individual de cada componente, mas também da
interrelação entre esses componentes. Este último ponto é ilustrado pelo
funcionamento da rede neural do cérebro, pois mesmo que pudéssemos determinar
as propriedades de cada nó da rede (neurônio), ainda assim não teríamos o
conhecimento sobre o funcionamento global.
Observa-se a partir da afirmação acima sobre o
cérebro que uma abordagem reducionista é insuficiente para tratar sistemas
complexos, como a rede neural. Isso obviamente se aplica a muitos outros
sistemas, naturais ou produzidos pelo homem, cujo comportamento é governado
pelas interações de seus componentes. Muitos cientistas, incluindo físicos,
cientistas da computação e sociólogos, usaram um paradigma de certa forma
oposto ao reducionista para investigar diferentes tipos de sistemas complexos,
em que não se consideram os detalhes dos componentes mas apenas sua conexão.
Um resultado interessante foi a de que a
organização de redes, como a da Internet e algumas redes sociais, obedece a
princípios universais, como o do chamado efeito rico-fica-mais-rico. Segundo
esse efeito, numa rede os componentes que já têm muitas conexões têm mais
chances de conseguir conexões adicionais. Ao final, a rede acaba por ser
constituída por um número pequeno de nós com uma quantidade enorme de conexões
(“riqueza”), e um número enorme de nós com pouquíssimas conexões. Esta
constatação é fácil entender para a Internet, pois quando se cria um novo nó, é
muito mais provável que seja conectado a um nó já com muitas conexões, um
provedor, do que a nós periféricos.
Embora pareçam antagônicos, o paradigma
reducionista e o uso de redes ou outros métodos estatísticos começam a ser
combinados em diferentes aplicações. É o que eu chamo de tendência à
convergência de tecnologias, em que se lançam mão de abordagens e estratégias
de naturezas muito distintas para atacar um problema difícil. Como exemplo,
menciono o diagnóstico médico. Por um lado, o diagnóstico depende de exames
clínicos com biossensores baseados em nanotecnologia. Por outro, requer o
tratamento de grande quantidade de dados sobre pacientes, que podem ser imagens,
relatórios, resultados de exames, etc. Implica em transformar informação, que é
relativamente barata e disponível, em conhecimento.
À medida que formos capazes de combinar
eficientemente essas abordagens, e pudermos processar todo o material
eletrônico hoje disponível na transformação de informação em conhecimento, assistiremos
a uma revolução no diagnóstico médico, como em muitas outras aplicações.
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